O coração é um órgão delicado e o
que é delicado não se apega de forma vigorosa e firme as coisas, apega-se de
forma frágil. Meu coração é assim, feito
de fragilidades.
Meu coração tem ligações tão
frágeis com as coisas, ligações tão facilmente destrutíveis, indefesas e sutis
que até mesmo o pensar um pouco demorado sobre elas já as fragmenta. Se dedico
atenção demais a essas ligações acabo por matá-las.
Assim acontece com minha relação
com a felicidade, com a esperança, com a reverência ao belo, com a afeição,
levando em consideração as pessoas de meu convívio e algumas centelhas de almas
que vislumbro aqui ou ali. São tão sensíveis e frágeis essas ligações, como a
teia que alguma aranha apenas sonhou. E podem se romper. Quando se rompem e
acabam sendo refeitas, perdem a fina nobreza da genuinidade. Em alguns casos, tornam-se sentimentos
recauchutados.
Mas há uma única ligação que não
se comporta como as outras. Apenas uma única fragilidade não teme e se
pulveriza, não desvanece esgotada ou se desfaz diante de um olhar mais atento
do pensamento: a minha relação com o amor. Apenas o amor, tão essencialmente
frágil, tão vulnerável, reage de forma diferente.
Milagrosamente o amor suporta,
pacientemente sofre as acusações iradas da razão, os desabonos da consciência
decepcionada, todas as agressões do intelecto insatisfeito. Mas quando a mente
mira com os dentes cerrados o sentimento, e o cérebro em fim ordena ao coração:
“Escolha as armas!”, o amor dá um passo atrás e ao fazer isso estica ao máximo
a linha que o prende ao meu coração, tornando-a extremamente fina,
imperceptível, a ponto de se passar por inexistente. O amor então se afasta para
outro lugar, onde permanece, mutilado, esperando, uma espera feita de
silencioso lamento.
O amor aguarda, até que o sangue
dos olhos da razão escorre. Então ele regressa ao coração, límpido, cristalino
e soberano. Retorna das veredas da alma, seu verdadeiro e eterno lar.
Não é mais no coração que o meu
amor vive, é na alma. Por isso, mesmo que o coração esteja em pedaços e
dilaceradas as tênues amarras sentimentais que o põem no mundo, mesmo assim o
amor se mantém. Um amor afastado da esperança, que caíra por terra; afastado da
alegria, que fora alvejada; um amor solitário, mas que permanece, porque
dolorosamente basta a si mesmo.
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