domingo, 27 de abril de 2014

Aos anjos que aqui existem

Aos anjos que existem e que aqui vivem
Que aqui tentam ouvir as belas canções
As belas harmonias ou silêncios
Que à noite aqui se viram de um lado para o outro
Antes de adormecerem
Intrigados com sabe-se lá o quê
E de nada se lembram ao acordar
Que no meio do dia inexplicavelmente sentem saudade
Repentinamente desejam chorar em um canto afastado
Um choro que não sai, que é um solitário suspirar
E nada mais
Tão breve, tão breve...

Cujo olhar se perde sonhadoramente
Acompanhando uma folha invisível que cai
De um galho invisível de algum plátano sob o outono
Soprado pelo vento dos corredores, dos grandes salões
De templos que só a alma enxerga...

A esses cujo peito se acalma
Com um afago gentil da solidão
Cuja alma ultrapassa as fronteiras do corpo
Por amar demais esse amanhecer e desejar tanto tocá-lo...

A esses eu desejo a plena liberdade
A pureza plena, a inocência límpida entregues por um gesto de sol

Como eu desejaria reconhecê-los
E cumprimentá-los em meio a essa angustiante condição humana!
Como eu desejaria amá-los e passar um tempo com vocês!
E ouvi-los dizer e dizer-lhes,
Numa tentativa, ainda que vã, de consolo:
Está tudo bem. Está tudo bem





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