Meu grande amor, meu anjo, minha
estrela,
O que a manhã
falava de ti, com belas palavras, numa conversa contente talvez com a alma
pequenina dos pássaros, atravessou a janela semiaberta e chegou aos meus
ouvidos. Senti teu nome, e deixando um sonho para penetrar em outro, vesti
qualquer coisa e saí para procurar-te. Saí, contente com a oportunidade. Desde
a primeira suposição de ti, desde a primeira miragem, jamais abandonei a fé de
que podia estar contigo.
A porta se abriu
para o orvalho pesado. Estava frio ainda. Eram quase seis da manhã. Normalmente
as ruas são quase desertas por aqui. Uma ou outra pessoa poderia ser vista,
errando, surgida do nada e no nada desaparecendo. Mas creio que o clima de hoje
não agradaria outras almas senão as profundas, e dessas muito raramente recebo
notícias. Se eu então encontrasse alguém, seria você, certamente.
Há coisas que
encontramos e coisas que nos encontram. Será que essa deve ser a regra também
para um coração que perdeu sua alma gêmea na sucessão de vidas e vidas? Será
que para esse desafortunado não existe nada além de desencontros?
Pois vaguei
esperançoso por lugares e lugares. Perscrutei horizontes e mais horizontes.
Interroguei a folhagem úmida e a brisa ainda sonolentas. Mas tudo estava já em
silêncio, meu amor. A agradável feição do sol, definindo-se lentamente, chegava
a dar-me esperança de algo bom. Mas afinal ele também não me falou de ti.
Sentei-me num
resignado banco de madeira abandonado à beira do caminho, ao relento, que
talvez pudesse tê-la visto. Mas ele não respondeu a nenhuma evocação que fiz de
ti, com minhas lembranças imprecisas, como se ele fosse incapaz de te reconhecer
a partir dos meus devaneios.
Tudo havia então te
guardado ou te escondido de mim? Exigia de mim alguma faculdade que eu não possuía,
alguma capacidade sublime que eu não tinha, para poder te descobrir? Fosse como
fosse, acreditei que qualquer sensação que a realidade pudesse ter guardado da
tua passagem tivesse sido lavada pelo orvalho e se perdera para sempre.
E foi com esse
vazio já familiar no peito que observei a tenra manhã chegando ao fim. Aos
poucos, com o avanço inevitável do real, a certeza de um novo desapontamento
foi se tornando nítida. Olhei para trás, para todos os mundos por onde passei e
achei incrível que em lugar nenhum pude sentir teu perfume, em lugar nenhum
havia um fio do teu cabelo solto no ar ou algo cuja beleza estivesse destacada
provando que recebera teu toque.
Como é difícil, meu
amor, alcançar essa ventura que é poder te olhar nos olhos e descobrir a vida.
Que paraísos eu poderia conhecer? Se não consigo sequer te encontrar, como
poderia sentir o gosto da tua boca pequena? É leviano cada pássaro, cada
árvore, cada inseto, é leviano cada ser que se omite, que não me fala de ti. E
cada vento, por não trazer-me e revelar teu nome, é leviano.
Fiquei ainda um
tempo caminhando, sem saber bem como olhar para as coisas ao meu redor.
Atravessei extensos panoramas sem nenhum significado, passos e passos em
concepções da vida repletas de ausência. Não encontrei o sentido. Não encontrei
a compreensão.
Meu coração bate
mais lentamente agora, sem ansiedade nem muito entusiasmo, no ritmo de alguma
canção antiga cujo refrão se perdeu no tempo.
Irriga meu corpo,
esse coração, com sangue e com esperança. Ama e te pressente. E jamais me
deixará descansar enquanto não se recostar em teu peito, enquanto não conhecer
o som que o teu peito entoa.
Em uma bela manhã,
quem sabe, tudo talvez se resolva.
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