domingo, 25 de agosto de 2013

O mais doído adeus

Antes daquilo que poderia ter sido o meu tão aguardado primeiro beijo, debaixo de uma lua imensa, a maior lua do ano, eu temi, como talvez a praia tenha temido ao se ver de repente responsável por abraçar o mar.
Tínhamos conversado tranquilamente. Falávamos do cotidiano, impressões vagas, sem o peso de nenhuma certeza, receptivos e sem invasões. Até que por algum motivo ela soltou o sorriso lindo, aquele sorriso encantador que a marcou para sempre. Seu rosto cobriu-se de uma suave luminosidade e a partir de então não consegui mais ouvir o que ela dizia e meu olhar passou a fixar-se ora na profundidade dos seus olhos ora sobre o desenho dos seus lábios.
É claro que pensei em anjos e em pedras brilhantes, em jardins de outono e canções bonitas, enquanto a olhava, fascinado. Um ermo céu escuro às voltas com uma estrela.
O gracioso gesto de arrumar atrás da orelha, com a ponta dos dedos, uma mecha do cabelo que lhe caía à fronte, com a cor do esmalte por um breve instante adornando o rosto delicado, o tom baixo de sua voz modulada e alegre, as roupas caindo levemente sobre seus finos contornos, tudo nela rescendia a um misterioso e amado perfume que só o meu espírito sentia, um perfume puro demais para o meu olfato rude.
Mas pouco tempo durou esse deslumbramento, esse vislumbre fantástico em que o coração resolveu acreditar. Porque logo que ela acariciou meu rosto e me sorriu de novo lindamente, a realidade começou a avançar sobre ela, invadindo os contornos dos seus braços, engolindo seus cabelos, nublando o brilho dos seus brincos. Sua imagem desvanecia.
Uma linha de lamento riscou brevemente seu cenho, mas seu sorriso não se desfez. "Não deixe de acreditar em mim", seus olhos me pediram. A luz incidiu suavemente sobre seus cabelos ainda uma última vez. E quando uma folha de álamo se desprendeu por acaso e levada pelo vento flutuou por ela, transpassando seu corpo já etéreo, tive a pesada certeza do fim eminente e de que jamais a veria novamente. Eu tinha os olhos úmidos, o coração apertado e um sonho adorável deixando-me mais só do que eu jamais fora.
E realmente nunca mais voltei a vê-la.
Ainda visito esse lugar e ora encontro nele o mesmo sol que a tinha iluminado, ora é a folha que tinha voado por ela que volta a cair, cujo vôo acompanho tristemente. Questiono-me nessas horas se essa folha ao vento não seria um sinal de que ela talvez estivesse por perto.
Em todas as vezes deixo nesse lugar pedaços do meu coração, arrancados friamente, impiedosamente. E deixo lágrimas, marcas do meu amor e da minha esperança que ficaram entalhadas na madeira.





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